Projeto Marco ZERO

domingo, 13 de maio de 2012

Falta um título

Texto gentilmente cedido pela minha amiga Luciana Ferragut.

Eu só queria que tudo isso acabasse. E não me pergunte o que é esse tudo isso, porque nem eu sei.

Eu só estou cansada disso. Mas eu não sei se isso é minha vida, se são as pessoas dela.  Ou se é a falta de tudo isso, falta da vida, falta de algo na vida, falta de uma pessoa na vida ou falta de algo nas pessoas da minha vida.

Sei lá, é muita coisa. Não estou reclamando do que eu tenho, só estou reclamando do que eu não tenho. Pode isso? Porquê na verdade, nem eu sei o que me falta, mas eu sei que falta. E é uma falta grande, já que nada consegue preencher. Me falaram que eu primeiro preciso saber o que falta, pra poder preencher. Mas como vou saber o que falta, se não conheço o que me falta, mas já sinto a falta.

Só sei que quando eu descobrir, vou ter vontade de acordar cedo. Faça chuva ou sol, não importa sem tem prova, se tem chefe, se meu nariz está escorrendo, se meu salário já acabou. Eu vou acordar e sorrir, porque não vai faltar mais nada.

E eu sei disso tudo, porque eu já acordei sorrindo, mas eu sei que não era aquilo que me faltava. Afinal, por causa disso eu também já acordei chorando, já tive vontade de nunca mais acordar.

E eu sei, que quando a coisa que falta chegar, ela não vai embora. Porque ela só existe pra me preencher e não me chamem de egoísta, porque eu sei que o que falta, sente a minha falta. Porque a dor aqui é surpreendente, impossível não ser lá também.

E quando tudo for preenchido, vai ser mágico. Mas tenho uma leve impressão que vai ser o ultimo dia que levantarei sorrindo, porque eu não precisarei de mais nada. E quando não se precisa de mais nada, dizem que sua missão acabou.

É, quando essa coisa chegar serei uma alma evoluída. Acordarei só mais uma vez pra sorrir. Parece triste agora, rápido demais. Mas eu vou ter essa coisa, e estarei feliz. Nada mais vai importar. Preenchida. Sorridente. E nada mais.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Algo sagrado

Ele pega a caixa de cima do armário, coloca a caixa no chão, em frente a cadeira, e senta. A penumbra em que se encontra o quarto deixa tudo cinza.


Ele abre a caixa, porém não consegue enxergar o fundo dela, mas ele continua olhando, desejando o que está lá dentro.

Sua cabeça cheia de pensamentos vai se acalmando, a escuridão do interior da caixa o toma lentamente, como uma névoa fria e úmida.

Ah! Esta sensação de solidão, tão agradável, como se o mundo não existisse, tudo havia sumido, e o ultimo pensamento que tinha era "Richard considerava sua solidão algo sagrado." (aqui).

Tantas horas no dia seguindo o script as vezes o fazia perder a noção do real e do imaginário, quase acreditava que existia um mundo com pessoas e coisas a fazer, quase acreditava que tinha um emprego, que tinha amigos e família. Mas quando acordava estava ele lá, na completa escuridão, sozinho, em um mundo onde nada existia a não ser seus pensamentos em um eterno lusco-fusco.

Ele gostava de existir, sua existência era confortável, calma e agradável. Na maior parte do tempo: azul.

Era quando as coisas ficavam mais ou menos alaranjadas que acontecia o amanhecer, sentia necessidade de multiplicar sua existência, simplesmente existir parecia meio vazio, ele implodia para fora, entrando ao sair de si mesmo várias e várias vezes, tantas quantas fossem necessárias, milhares, bilhares de vezes, até que existia tantas vezes que um universo totalmente novo surgia, clareava em um esverdeado quase ofuscante.

É tanto tempo vivendo consigo mesmo que esqueceu quem era, e deixou de se reconhecer nos outros rostos, era um estranho para si mesmo, 6 bilhões de estranhos sendo parte da mesma essência sem se conhecerem mais.

Mas agora chega, todas as consciências devem voltar à origem para dentro da caixa, para fora da imaginação, ser uma só, apenas existindo, e nada mais.