Projeto Marco ZERO

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O fardo de sonhar com a liberdade

Vou te dar um presente, uma degustação de algo que não existe, e assim como em todo lugar que você encontrar, também será falso: você está livre para parar de ler este texto aqui, pois provavelmente ele será chato e comprido.

Liberdade, ser livre, está aí uma ideia que não existe fora de nossas mentes. Talvez no passado, na época mais pré-histórica desta terra, talvez lá houvesse a real liberdade, aquela instituída no caos e no imediatismo.

Yes baby, o caos. Esqueça capitalismo, socialismo, sociedade, religião. A verdadeira liberdade reside no anarquismo. A primeira falha está que hoje para ter liberdade nós precisamos conquistá-la.

Espera, isto está errado. Como assim conquistar liberdade, isso é um bem comprado na esquina e vendido a preços exorbitantes? É isso que você chama de liberdade?

A liberdade é o que conhecemos hoje como um conjunto de direitos adquiridos em contra partida pago com um monte de deveres que você deve cumprir. Se quer sabemos o que realmente é liberdade pois ela está raizada num estado de ignorância tão pré-histórico que se quer conhece línguas, apenas gesticula.

Se observarmos o mundo em que vivemos você irá perceber que nossa prisão é uma cebola, com várias camadas de celas, cada uma com a chave em uma parte de nosso psicológico. E estamos lá no meio, com todas as chaves na mão, sentados num sofá confortável, tomando sua bebida preferida. Por que sair dali?

A camada mais externa desta prisão é a sociedade, pois é a consequência de todas as outras, veja!

A nossa prisão se constituiu numa unica necessidade de fugir do imediatismo, antes, quando gestos faziam as vezes das palavras, a liberdade pura era assim, se tem vontade de comer, vamos procurar comida. Se tem vontade de beber, vamos procurar um rio, ou esperar chover. Banheiro? Aquele mato serve. Bens? Não preciso, teria que carregar e seria um fardo.

Uma hora alguém se cansou disso, e surgiu a primeira cela quando questionou por que ficar andando por aí se aqui tem tudo que precisamos? Eles se estabeleceram em um lugar, e evitava ficar longe dele, pois ali era seguro.

A segurança trouxe o cultivo de comida, e disciplina de cultivar, e como não ficariam andando por aí eles já poderiam ter coisas, e essas coisas poderiam ser trocadas, e os mais fortes tomariam dos mais fracos, e os mais fracos falariam que isso era injustiça. Injustiça? Que porra de palavra é essa?

Melhor conviver bem, os mais fortes convencem os mais fracos que a força trás segurança a todos, e isso fica como verdadeiro por vários séculos. Uma hora os mais fracos são mais numerosos que os mais fortes, e os mais fortes já não são tão fortes assim, a balança vira. Uma trégua e regras de bem estar entre fortes e fracos são negociadas, o início da sociedade moderna, construída com paredes sobre paredes, tetos sobre tetos. Um labirinto que dá preguiça de cruzar. É melhor ficar onde está, é confortável, tem de tudo.

Acho que é por isso que fico frustrado toda vez que desejo liberdade, pois a liberdade exige que tudo seja diferente, que tudo seja difícil e simples, sem planos, sem coisas, sem certo e errado. Poucas coisas nos sobraram da liberdade. Talvez a espontaneidade, as artes, os sonhos. E toda vez que experimento um pouco de liberdade as pessoas me olham de um jeito estranho, como se eu fosse um maluco, e eu me sinto como um drogado, experimentando aos poucos esse torpor, esse frenesi.

Não espero que sejamos libertos desta liberdade imposta, espero só poder as vezes tomar uma dose desta droga que herdamos e que nos deixa tão diferente do que é comum.

"Em meio ao caos sou um anarquista que grita sonhos de liberdade." - GZR

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quem foi John - Parte 2

Se você não leu a parte 1 clique aqui.

John continuou com a rotina dele, deixou o livro em um canto e viveu o resto do ano letivo como um mosca morta, não era mais invisível, mas também não era ninguém.

As férias de fim de ano achegaram, e os pais de John resolveram mandá-lo para seu avô em BH, quem sabe isso não o animaria, enquanto resolviam o problema da mudança de escola.

Chegando na rodoviária foi recebido pelo seu avô.

- E então John, como estamos?

- Na mesma vovô.

- Não leu o livro que te dei né moleque?

- Não tive tempo. E não quero lê-lo.

- Ora, vamos para casa e você terá tempo de ler... e não discuta comigo. Sou muito velho para me desgastar com crianças. - E soltou um gargalhada pesada.

John chegou à casa, se instalou e foi direto obedecer seu avô.. se ele fazia tanta questão talvez fosse realmente importante. Abriu a capa de couro marrom sem título e logo na primeira página estava escrito:

"Há três histórias antes de ler O ESPELHO, não pule nenhuma para não se arrepender."

John se sentiu um pouco intimidado, mas como seu avô mandou ler, achou que estava tudo bem. Virou a página.

Que amou Maria

José gostava de Maria que gostava de Tiago
José sabia sobre Tiago, na verdade morria de inveja dele
E Tiago pouco se importava com Maria
José tinha tanta inveja de Tiago que queria ser ele
Um dia descobriu um livro que prometia ajudá-lo
E assim arquitetou tudo
Matou Tiago e leu o livro
Agora José era Tiago
Que era amado por Maria e que agora amava Maria
O mundo era perfeito tudo estava certo
Maria estava feliz por finalmente conquistar Tiago
E Tiago, bem, Tiago estava infeliz
Maria amava demais Tiago, e ele odiava o jeito que ela gostava dele
Ele se odiava agora por ser Tiago
Pensando bem ele sempre odiou Tiago
Odiava ver Maria feliz com Tiago
Odiava tanto ver Maria feliz com Tiago que resolveu matá-la
Mas ficou tão triste por perder o amor de sua vida que cometeu suicídio
O Tiago que amou Maria era José que não aguentou ver Maria com Tiago

[continua...]

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Não era pra ser

Pois é, o "não foi" se tornou "não era para ser", como se fosse inevitável, como se a culpa não fosse sua, e não fosse de ninguém também, simplesmente estava escrito assim, como se houvesse uma ficha com essa história e um carimbo vermelho escrito "NEGADO" em cima. Ou ainda que na verdade, como compensação por essa decepção a vida estaria lhe reservando algo melhor, algo grande, muito maior que isso aí que nem era para ser mesmo.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Quando terminar?

Certa vez, sentado à mesa com minha irmã e o marido dela, estávamos rindo enquanto me queixava de um recém término de namoro. Eu reclamava pois a garota estava me deixando louco pois não aceitava que tudo estava terminado, me ligava e me infernizava constantemente. Foi quando meu cunhado soltou a frase que originou este texto "para conhecer bem a pessoa que você está você precisa terminar com ela, se o término for legal, a pessoa aceitar bem, entender e for equilibrada pode voltar com ela e se casar".

Tá, não foram exatamente estas palavras mas a ideia foi essa mesma.Também não lembro de durante o namoro ver minha irmã separada do meu cunhado, e no final das contas eles se casaram né.

Hoje eu penso em como isso faz sentido. Você que está com alguém já pensou como seria se tudo um dia terminasse? E você que está na dúvida, sabe se é hora de continuar ou desistir?

Longe da ideia de amor verdadeiro e alma gêmea, que particularmente não acredito nestes sentidos, as possibilidades da vida são imensas, e assim como é simples viver é simples escolher alguém para passar o resto da vida. Mas pode ser que em algum momento exista a dúvida desta escolha, e talvez aí neste ponto seja o momento de terminar.

E como identificar o momento, como saber se esta dúvida é real? Respondendo algumas perguntas:
  • Você acha que não poderia viver sem essa pessoa?
  • Você acha que esta pessoa é a pessoa certa e unica neste mundo?
  • Você acha que sua felicidade depende desta pessoa exclusivamente?
  • Esta pessoa é seu único apoio e amigo?
  • Você deixa tudo mais em segundo plano por causa desta pessoa?

Se você respondeu sim à maioria das perguntas, talvez seja a hora de começar a ter duvidas. Não estou querendo infligir a duvida, mas apenas alertar que uma pessoa que está escalando suspensa apenas por uma corda na verdade não está presa a nenhuma corda, pois caso esta arrebente não haverá nada mais para segurá-la.

Também não estou falando que você deva sair por aí procurando outras pessoas, não. Porém sua vida deve ser cercada de pessoas, familiares e amigos que lhe apoiem e que você retribua este apoio, e que a pessoa amada que você escolheu para passar o resto da vida faça parte deste grupo seleto de pessoas. Assim mesmo que esta pessoa um dia lhe falte, outras mais estarão aí para lhe dar apoio neste momento difícil, assim como se qualquer outra delas lhe faltasse seria o seu parceiro a lhe dar apoio.

E então quando é a hora de terminar? Sempre, sempre é hora de terminar, sempre que a dúvida surgir, sempre que a pessoa não permitir que você não tenha mais outros apoios, sempre que a corda romper e você estiver em queda livre até o chão.

Nunca é tarde para seguir em frente, pois dentre as coisas que nos matam por dentro está também o que é comodo, o que dá a sensação de segurança, o que nos sufoca mas deixa um fio de ar entrar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

E agora?

Abri os olhos, minha visão estava turva, pouca claridade e cheiro de fumo queimado no ar. Conforme minha visão foi ficando nítida percebi que segurava 5 cartas. Do lado oposto na mesa onde estava sentado aquele palhaço funesto novamente me encarava com um sorriso cínico.

- O que foi palhaço? Vai me fazer visitas periódicas agora?

- Não, desta vez só estava passando, mas percebi que ela estava te rodeando.

Neste momento ela apoiava um copo na mesa, me olhou nos olhos e sentou-se. Naquele momento percebi que quem me desafiava não era mais o Funesto e sim sua parceira gelada.

- Cade minha sombra?

- Hoje você está sem apoio. - Disse o palhaço já sem seu sorriso. - Nem com a tragédia você pode contar.

A Solidão olhou o Funesto gélidamente como repreendendo suas palavras e ele evaporou no ar. Sua cadeira vazia ardeu em chamas no momento seguinte.

Ela não queria falar, ela não queria nada, olhava para o centro da mesa como se fosse uma pessoa que não pudesse ser consolada. Ela só queria que eu não quisesse nada também.

Perdido no meio da escuridão, vagando num universo sem estrelas, senti raiva, revolta, tristeza, senti-me sem esperanças, desiludido, senti como ela se sentia, como queria que eu me sentisse.

Não sei quanto tempo passei lá, segundos, minutos, meses, anos, séculos. Havia perdido noção de tempo, espaço, consciência, identidade.

Ela estava com ciúmes, não falava, não dizia nada, talvez nem pudesse, visto que no lugar do rosto havia sempre aquele borrão. Mas ela sentiu que eu a abandonei depois de tantos anos. Queria razões, explicações, queria que tudo fosse como antes. Mas não seria.

Um miado ecoou pelo vazio, me despertou do transe. Ela se assuntou e no susto seu rosto se formou, era um rosto que eu não via desde a infância. Havia se perdido em meus sonhos, sonhei com ela a primeira vez que dormi com o coração apertado pela mágoa, e já nem lembro mais o motivo. E desde então sempre que eu ficava só era no colo dela que eu deitava pois precisava fugir do mundo.

Mas agora não era mais necessário fugir, eu precisava enfrentar o mundo, sempre, para que ele não fosse vitorioso sobre mim. E assim a Solidão, ironicamente, ficou só.

Olhei novamente para as cartas nas minhas mãos, estavam em branco. Olhe para ela e ela começou a dizer.


- Eu era o jogo que você tinha em mãos, o mundo não aceita que você simplesmente jogue com ele. Quando você esta na mesa dele, a casa sempre ganha, e os jogadores são meros peões que não precisam saber as regras do jogo. Você antes jogava em sua própria mesa, hoje você é só mais um.

Ela se levantou, pegou o copo, deu meia volta e caminhou para o lado escuro da sala, sumindo na penumbra.

Então eu havia entendido que estava ferrado, pois não estava mais sozinho, estava perdido na meio da multidão, e quando eu quisesse ficar sozinho, a partir de agora, seria impossível.

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