(Título do post inspirado em filme do mesmo nome.)
Se você não leu a primeira parte desta história, clique aqui e leia "Cinza".
E a jornada continuava em busca daqueles olhos que encantaram um pobre sonhador que nada mais fazia a não ser cuidar de seu próprio mundo.
Por muitas noites ele vagou, de sonho em sonho, entre devaneios e pesadelos. Era tão obstinado que ia dormir antes do sol se por, e acordava já no meio da manha, quando o sol estava lá em cima, bem no alto.
Foi perdendo seus dias, perdendo a noção do real e imaginário, da lucidez e do sonho. Sua barba e cabelos cresceram. Seu rosto já era irreconhecível. Sentiasse fraco demais para para levantar-se da cama. Começava a falar sozinho durante o dia em seu apartamento de 1 cômodo. A luz já não adentrava mais a janela.
Obsecado pela mulher de azul, estava trocando cada dia mais a vida real pelo mundo dos sonhos, até que um dia ele não acordou. O sino já badalava 12 vezes e o sol culminava no céu, mas ele não acordou.
Estava preso e não sabia aonde. Não entendia como tinha chegado até alí, e não sabia como voltar. Seu corpo e suas roupas ainda eram cinzas, mas como cada um sonha de um modo diferente, ele estava em um jardim verde escuro, a lua estava lá em cima no céu, aquela que foi sempre sua companheira durante todas estas andanças, mas hoje as nuves encobriam sua luz.
Não conseguia entender, durante todo este tempo foi capaz de vagar entre os sonhos de cada ser vivo neste mundo, invadiu cada pensamento, cada mente adormecida, atravessou cada um que estivesse sonhando. Mas agora se encontrava em um jardim escuro com um poço, daqueles bem bucólicos, no meio e 6 bancos bancos rodeando esse poço.
Ao sul um portão alto em forma de arco e com três gárgulas mal encarados olhando para fora do jardim. Ao norte um portão alto e retangular com três querubins, 2 armados com arco e flexa e o do meio segurando uma espada apontada para o poço.
Mas não importava quão assustadores fossem as imagens, ambos os portões estavam trancados e a volta toda havia uma cerca que impedia a entrada ou saida de alguém.
De repente um sino começou a tocar e após a décima segunda badalada um vento forte começou a soprar, a lua deixou de ser tímida e resolveu se mostrar.
E com a luz da lua aquele jardim escuro se mostrou mais aterrorizante. As sombras formadas pelas arvores pareciam almas torturadas. E com um rangido forte o portão ao norte se abriu dada a força do vento.
Assustado ele olhou em direção ao portão e viu que o vento ainda acompanhava aquela mulher de vestido azul, ela caminhava em sua direção com um ar triste. Ele tinha certeza agora que ela deveria ser uma bruxa ou uma feiticeira.
Ela contornou o poço, caminhou em direção a ele.
- O que está fazendo aqui? - Ela perguntou olhando com um grande pesar em seus olhos.
Neste momento ele sentiu o peso de sua jornada.
- Estive atrás de você desde o dia em que te vi, me apaixonei por teus olhos, não pude evitar.
- Este é o meu mundo, o mundo de onde vim, mas aqui não é um mundo de sonhos como o seu. Atrás de você, ao sul, todos os mundos antes deste são de sonhos, atrás de mim, ao norte, é para onde vão as almas que já não sonham mais, e sua jornada na terra acabou, elas tomam aquele caminho para serem julgadas e tomarem um novo rumo.
- Você quer dizer então que estou morto?
- Não, eu quero dizer que você está no lugar errado, vou deixa-lo partir pelo portão ao sul, mas você não deve voltar aqui até chegar a hora em que você for chamado.
- Mas eu não quero voltar eu vim até aqui para ficar com você, para ficar ao teu lado, não importa como.
- Ninguém pode ficar aqui comigo, ou você toma o caminho ao norte, ou você segue para o sul, neste jardim só eu permaneço.
Neste momento um vento forte voltou a soprar do portão norte, tão forte que começou a arrasta-lo em direção ao portão sul. Ele havia entendi o recado e sabia que não poderia ficar lá. O vento ficava cada vez mais forte e o jogou contra o portão sul. O gárgula olhou para tras, viu o homem prensado contra o portão e o abriu, e o vento continuou a arrasta-lo através dos vários mundos de sonhos até cair em si, deitado na cama de seu apartamento, ensopado de suor.
Ela ficou lá, olhando para ele enquanto se afastava quicando pelo chão cheio de terra e folhas. Sabia que se alguém neste universo fosse amá-la, este alguém seria ele e só ele, e neste mesmo momento ela percebeu que o amava, e por isso que ao observa-lo em seu mundo havia se perdido do caminho daquela vez.
Ele, ao acordar em seu apartamento, estava desorientado, mas resolveu seguir adiante, levantou-se, tomou um banho, fez a barba, e iria seguir sua vida com a mesma vontade de viver que tinha antes de conhece-la. Pois ele sabia que quando chegasse a hora certa ele teria que atravessar aquele jardim novamente, e então ele teria outra oportunidade de encontra-la.